Mais do que nunca, negociação é o que vai definir a gestão sindical no século 21

 

O atual CEO mundial da Ford, Alan Mulally, é um bom exemplo de liderança empresarial conectada com os desafios da gestão sindical daqui para frente. A opinião é do diretor presidente da Garcez Recursos Humanos, Edmir  F. Garcez. Ex-negociador sindical da montadora, aqui no Brasil, entre 1974 e 1985 – além de ter exercido o cargo de gerente de RH da empresa entre 1960 e 1985 –, Garcez  diz que essa interpretação a respeito de Maluly é da matéria publicada pela Business Week que entende que a grande habilidade do executivo em entender  as  relações de trabalho e de conhecer como funciona o trato com os sindicatos e as negociações  o elevaram acima dos demais concorrentes para  a contratação  pela família Ford,  como o principal líder da Empresa em todo o mundo. O que significa que “a palavra chave para  a gestão  das  relações sindicais no século 21, mais que nunca  é  negociação”, diz  Garcez, que vai participar da 5ª edição do congresso sobre gestão de pessoas promovido pela ABRH-BA (veja quadro ao final desta entrevista) . “É necessário que o profissional desse  nível, em especial no Brasil,  entenda esse universo para poder orientar adequadamente  a   hierarquia a definir  objetivos a serem alcançados pelo conhecimento e prática de  relações  com os sindicatos de trabalhadores. O crescimento das demandas, frente ao nosso  pujante desenvolvimento, que nos levará em breve a ser uma das economias mais importantes do mundo,  será cada  vez mais  e  mais freqüente, exigindo em conseqüência maior competência dos executivos e não apenas do RH”, afirma o  Consultor para justificar  movimento que  em curso nas empresas, que é a preparação  da  hierarquia em todos  os  níveis de seus executivos. “Não só dos gestores de RH, apenas, mas da hierarquia”,  enfatisa o Consultor,  sobre a necessidade  de  se conhecer  toda  a  cadeia do   processo  para  a  gestão  profissional  de  nível e assegurar os  objetivos de resultados da empresa.  Se assim não for, a conseqüência será correr atrás do prejuízo e atribuir a culpa ao sindicato, sob a alegação que são despreparados, comunistas irresponsáveis e outras coisas do gênero, como fizemos no Brasil  em boa  parte do tempo”. Importante ressaltar que estamos caminhando celeremente para frente também nessa área, ou seja, na gestão de pessoas e nas relações com os sindicatos.

 

MELHOR – Como se relacionar com o sindicato em um país com forte engajamento político nas entidades de classe?

Garcez – Quando  pensamos sobre  sindicatos de trabalhadores e a estrutura sindical brasileira, lembramos das origens  dos movimentos reivindicatórios dos trabalhadores, a partir da revolução industrial na Inglaterra – final da  idade média  inicio da idade moderna – a extensão pela Europa e  EUA, passando pelo Brasil após a abolição da escravatura (1888), o ciclo imigratório e a contribuição histórica dos anarquistas, depois as influências socialista/comunistas, com o final da primeira guerra. O surgimento de novas lideranças e  o  posicionamento reacionário das elites empresariais da época, que por fim encontra um eterno bálsamo para as suas preocupações de preservação do patrimônio, na proposta de  estrutura sindical de inspiração fascista em prática na Itália de então, tida  como de  grande sucesso pelo ditador  italiano  Mussolini.  Lembrando  das  origens  dos  movimentos  dos  trabalhadores,  a partir  da  revolução  industrial, passando pela nossa história e  realidade do Brasil da década de 1930,  quando o então presidente Getúlio Vargas passou a criar as leis trabalhistas, as Juntas de Conciliação e Julgamento (1932), a Justiça do Trabalho(1939), depois  consolidou todas as leis  em 1943  na CLT – a Consolidação das Leis do Trabalho,  até os dias atuais, podemos perceber  que  essa  estrutura que está em vigor, louvada  e preservada a ferro e fogo pelas elites até hoje, tem sido objeto de projetos de lei de todos os governos, até mesmo dos militares para  “ modernizá-la”,  mas até agora ninguém conseguiu, pois a força das elites e do  “establishment” sempre  se postou  intransponível. O  máximo que  tem  permitido  são  ensaios  que  ensejam  aos  governos angariar votos  ou  a  simpatia  dos  trabalhadores, nas eleições gerais,   nada além disso. Nem mesmo romper com  a  vergonhosa manutenção da crendice que trabalhadores sindicalizados são   aqueles  que   se  tornam  sócios   do sindicato   quando   legitimamente    todos os trabalhadores brasileiros celetistas   são   sindicalizados,  desde  a origem, pois  contribuem  compulsoriamente   para   os    sindicatos, pagando valor correspondente a um dia  de trabalho que  é  descontado de seu salário em folha de  pagamento, anualmente  no  mês  de  março  e    recolhida   no mês   de   abril  à Caixa   Econômica  Federal  que procede  a distribuição   ao  sistema, 60% ao sindicato, 15%   a   Federação,   5%   à   Confederação,   (modernamente)10%  à Central  e  10%   ao   MTE.  O volume total desse recolhimento obrigatório   dos   trabalhadores   que   faz   de   todos   obrigatoriamente   sindicalizados  gira   hoje,   em  torno de R$2,5(dois   bilhões   e   meio   de   reais), agora,   com certeza,   fica   mais   fácil  entender   porque   ninguém,   nenhum   governo  conseguiu   a   tão    desejada   modernização. Interessante observar que  o  entendimento,  mesmo da venerável Justiça  do Trabalho  é   que  sindicalizado é  aquele   trabalhador  que  espontaneamente  se   torna   sócio    paga  uma  pequena  taxa mensal   ao   sindicato para   poder   ter  direito  ao  serviço  médico do sindicato,   colônia  de  férias,   enfim   ao   assistencialismo,   criado  para  alienar   e  claro    somente   esses,  a   esmagadora  minoria    pode   votar   e  ser   votada.  Não  lhe  parece   absurdo ?  Essa  é  aliás,  uma das razões ou a principal razão   pela   qual  os  dirigentes  sindicais   dos   sindicatos   de   trabalhadores   ou    sindicato   patronal   se   perpetuam   no  poder.   No sindicato de trabalhadores, como regra,  salvo   claro,   as   exceções   os dirigentes   detestam   os   trabalhadores    que desejam   se   tornar  sócio,  ampliando   o   quadro e logo a concorrência,   a   possibilidade   de    oposição para tomar  aquele rentável  posto. Assim os sindicatos,  muitos,   Brasil    afora,   têm    donos. Portanto,  um excelente    negócio ! O presidente Lula  também não conseguiu,  não   modernizou   essas estruturas,    até para eliminar   vícios,  desde corrupção,      até  às práticas    de   negociação     entre    capital    e    trabalho,    da   forma    como    é    feito   no   chamado   mundo    desenvolvido       muitos    anos. Entretanto,     por  justiça    deve-se   reconhecer    que    se     o   governo   Lula,    a despeito    de   todo    o   esforço   despendido   através  do  Fórum  Nacional    do   Trabalho    e  tentativas  de  modernização    com  a  proposta   da   Reforma    Sindical    e  da   Legislação    também frustrada    pelas    mesmas razões    dos   governos    anteriores. Qual  foi    a    estratégia     utilizada pelos representantes das elites   para  inviabilizar     a   proposta   de modernização, quando   percebeu  que a Reforma   Sindical   poderia   ser   aprovada?  Claro, foi insistir que  a   Reforma    da   Legislação   Trabalhista   fosse    avaliada   e    votada conjuntamente   com   a    Reforma    Sindical,   pois sabiam   que   seria    impossível. Graças  a  eles,   o Brasil continuará,   sabe-se     por quantos    mais     anos,   com    a   velha  e   conveniente  Estrutura   Sindical   Getulista.   Incrível   e decepcionante,  parece que os mesmos que  respaldaram   as  decisões de Getúlio na década de trinta   e  seguintes   ainda continuam no   Congresso   Nacional. Mas há que se reconhecer  que   o  atual governo   deu   alguns   passos   importantes,   mesmo   impedido de  entrar   na   essência  da  Estrutura  Sindical... como   esperado   e   necessário   para  uma   sociedade  que  se  pretende  moderna  também   nessa  área. Por exemplo,   legalizou   as   centrais sindicais  que viviam   paralelamente  e   à margem   da   intocável Estrutura Sindical,   que  embora tivessem e tenham   estatutos próprios,    porém    não    pertenciam    à    organização sindical   oficial.   Só em 2008   as   centrais   sindicais   foram   reconhecidas   e    tiveram    direito   a   receber  parte (10%)    da   contribuição   sindical,   na verdade   do   Imposto Sindical. O   engajamento   político   dos    sindicatos   que  vem   de Getúlio,  trazido da experiência fascista  que  tem por objetivo exclusivo  promover   o  sindicalismo pelego, servil, subalterno,   que existe  apenas  para  o  benefício  das  empresas,  do   governo  e  daqueles  privilegiados   que  com    o    apoio  ou  a indiferença   do   governo    apoderam-se  do  sindicato,  nesse ninguém mexe,   como ficou   mais uma vez demonstrado . Esse sistema   como  se    apodreceu, durante  todos  esses  anos,   sob   o   ponto    de   vista   ético,    perdendo as origens   transformando-os    em um negócio, fonte de lucro   fácil, sem qualquer necessidade de investimento de   capital    e   de   dedicação  ao trabalho.   Porém   a   partir da greve dos  Metalurgicos/Industria Automobilistia   do   ABC  de 1978   e o   posterior   surgimento  da   CUT   em    1983,   começou   a   aparecer   no Brasil    um sindicalismo diferenciado   de luta  pelos   interesses  e    direitos dos trabalhadores e a trabalhar para mobilizar os trabalhadores e prepará-los  para romper com a alienação político/sindical e com as velhas estruturas e as negociações centralizadas.  A partir daí   outros sindicatos,  poucos   é   verdade ,   surgiram   e  passaram a adotar a mesma linha de luta pelos interesses dos trabalhadores, alguns inclusive passaram a devolver aos trabalhadores o dinheiro arrancado de seus salários no mês de março de cada ano , o imposto sindical. Hoje, existem mais de 20 mil sindicatos no país, porém apenas cerca de  uma  ou duas dezenas    deles, se tanto,   estão preparados   para   lutar   pelos   interesses  e   direitos dos trabalhadores e mobilizá-los para cumprir o seu importante papel na sociedade capitalista democrática,   os outros   despreparados   e   desinteressados, porque   seus   os objetivos  são outros,   como  já vimos,  apenas  sugam   os trabalhadores.  O novo sindicalismo nascido no ABC   fez   com   que   as    empresas   substituíssem   o departamento pessoal, “  o  Gerubal Paschoal, Chefe do Pessoal”   inicialmente pelo RI – Relações  Industriais, trazido da experiência americana;  na década  de  80, também da experiência americana trouxe   o  Recursos Humanos   e  junto  os especialistas -  o  Relações Trabalhista  e  o  negociador  trabalhista - diminuindo a área de influência do Advogado trabalhista, que ficou restrito ao contencioso.  Isto porque percebiam  que  os sindicatos, a exemplo  do  que havia acontecido nos EUA   pelo menos 50   anos   antes, davam  os primeiros passos no Brasil  para  um embate   equilibrado,   percebiam que os sindicatos dos trabalhadores preparavam-se para a solução dos embates pela via da negociação, não mais pela Justiça do Trabalho via   dissídio coletivo,  inclusive com o apoio dos sindicatos americanos UAW e outros e também  dos europeus IG Metal, FNV, UGT, etc   e  vinham desenvolvendo talentos  e  se organizando fortemente.

 

Melhor - Em que medida interesses partidários políticos podem prejudicar negociações?

 

Prejudicam bastante, pois quando os interesses políticos partidários/ideológicos misturam-se com problemas de  relações do  trabalho, os trabalhadores, a empresa e o sindicato, com certeza perdem. Porém é válido afirmar que os sindicatos bem estruturados hoje já sabem disso, se dão conta  e procuram manter esses aspectos  a   distancia, mesmo os interesses políticos sindicais que também existem nesse universo. Isso depende do nível de politização dos trabalhadores. Quanto mais informados eles forem, menos manipulados serão pelas direções sindicais. Os metalúrgicos do ABC, Campinas, São José dos Campos,  Grande  Curitiba/PR, Químicos, Bancários, Siderúrgicos e outros, são  exemplos de sindicatos que administram muito bem esses aspectos, ao contrário  daqueles mal posicionados que despreparados  não primam por boas   lideranças, ou seja, aqueles arraigados à velha estrutura sindical que perpetuam os seus dirigentes, cujo interesse maior está focado pura e simplesmente na arrecadação da contribuição sindical(Imposto Sindical), taxa  negocial, contribuição assistencial, contribuição confederativa , etc..  O executivo de empresa bem preparado sabe identificar e como trabalhar com essas diferenças.

 

Melhor - O que vai definir a gestão sindical no século 21?

 

Garcez - O que está em marcha acelerada no Brasil é a preparação dos executivos das empresas. Não  apenas dos gestores de RH, mas da hierarquia, a necessidade de se conhecer toda a cadeia desse  processo para uma relação de  nível profissional  nessa  área, mesmo a nível internacional, EUA e países da Europa verifica-se essa preocupação, como por exemplo, a menção pela Business Week  ao caso do CEO da Ford, Alan Mulally (ex- Boeing), em 2006,  demonstra sobejamente como nos dias de hoje   é   necessário que um profissional desse nível entenda esse universo para poder orientar as relações adequadas. No sistema capitalista democrático, os sindicatos são um dos baluartes importantes, mas não  exclui a possibilidade  de sua existência em  regimes de extrema direita ou esquerda, como o de Cuba, ou do General Wojciech Jaruzelski, na Polonia de Lech Walesa, na década de 80, por exemplo, que também tem sindicatos – só que, nesse tipo de regime, eles servem aos governos, os sindicatos  não existem para representar e lutar pelos interesses dos trabalhadores. Então a palavra chave da gestão para o século  21,   mais que nunca  é   negociação...Aliás, em tempo, é bom também mencionar que a última obra do Papa da Administração,  Peter Drucker, publicada post mortem  leva o nome  “Desafios Gerenciais para o Século 21”   

 

Melhor - Qual a dificuldade de construir essa mentalidade nos gestores brasileiros?

 

Garcez - A dificuldade  passa sempre pelos aspectos culturais conservadores, as resistências naturais, pelo despreparo, pelo baixo nível de conhecimento  dessa realidade pelos  executivos brasileiros. Essa preparação, mesmo nos países desenvolvidos, às vezes sai dos eixos, porque nem todos estão prontos em especial em razão da rotatividade   normal,  e  da renovação natural dos quadros. No ano passado, na França, foram “sequestrados” por sindicalistas alguns executivos de empresas, como da Sony e  Caterpillar (ver boxe Reter “na marra”). Se isso acontece no Brasil, onde estamos em processo de desenvolvimento, a opinião pública ficaria abismada, a mídia os trataria, com certeza, como se bandidos fossem. Ocorreu na França porque os executivos  há tempos não se  preparavam  para trabalhar nesse universo de conflito. Essa mudança de mentalidade só vai funcionar se a cabeça maior da organização caminhar nessa direção; não adianta um RH moderno e estratégico se o CEO impede que ele atue. Por outro lado, mesmo  um líder negociador, se não existir um RH competente, ele terá de buscar essa competência. Ao contratar Mulally, a   Ford   não mergulhou nos problemas que a GM  vivenciou durante   a   crise, segundo nos informa a mídia americana. Empresas extremamente conservadoras se auto destruirão se não mudarem a mentalidade de negociação de seus  executivos. Mesmo em outras áreas se não houver preparo a possibilidade para a negociação a possibilidade de fracasso é muito grande , veja, por  exemplo, os problemas Iran x EUA e outros.  

 

Melhor - Qual o papel e a influência das regulamentações e leis trabalhistas na gestão dos sindicatos?

 

Garcez - Há uma influência significativa, mas não tão grande no campo da legislação trabalhista, como os advogados trabalhistas imaginam. Isso porque em outros países sequer existe justiça do trabalho, como nos EUA e Japão. Os problemas são resolvidos pela negociação do dia a dia, no chão de fábrica, pela relação chefe  x   subordinado – o primeiro nível da  hierarquia com a sua equipe de operadores, mecânicos, seja lá qual o business, quase tudo  ou  a  maioria das coisas são resolvidas no setor, isto está absolutamente demonstrado e comprovado. Quando a gestão está preparada para isso, sobra muito pouco para o sindicato, inclusive para os sindicatos que estão alocados nas empresas, como no Japão, por exemplo, ou nos EUA, Alemanha, etc. No Brasil, se você diz  uma coisa dessas, muita gente vai arrancar os cabelos. Quem vai admitir sindicatos nas empresas, Comissão de Fábrica, Comissão de Empregados? Eles não são inimigos das corporações, nem querem destruir as empresas, essa visão distorcida precisa mudar. Se as pessoas abrirem os olhos, irão perceber que, na maioria das vezes, os interesses dos trabalhadores, dirigentes sindicais ou não e das empresas são os mesmos, convergem. E, quando forem diferentes, não convergirem precisam ser solucionados e o caminho é pela negociação e não pelos tribunais. Isto está absolutamente comprovado !. Um exemplo recente, aqui no Brasil, foi o  caso da Embraer, quando o capital atropelou os colaboradores sem dó  na crise de 2008. Talvez não houvesse outra saída e o comandante do navio frente  à   tempestade  iminente adotou a única  solução possível e assumiu os riscos. Claro que em condições normais, com certeza outra decisão seria adotada, sem dúvida a solução pela negociação. Mas de qualquer maneira os homens depois de se matarem nas guerras, no final, os que sobram acabam buscando a mesa de negociações para regular o fim da guerra.

 

Melhor - O senhor acredita que as reformas trabalhistas sairão no próximo governo?

 

Garcez - Torço muito por isso, para que haja uma modernização na estrutura sindical e na legislação trabalhista, que a sindicalização não seja obrigatória pela cobrança compulsória da contribuição sindical, que a negociação entre capital trabalho seja absolutamente  privilegiada, que a possibilidade de dissídio coletivo seja definitivamente abolido prevalecendo o que reza a Emenda Constitucional 45, que nos impasses nas negociações, o juiz somente dê seguimento à ação de dissídio se as duas partes estiverem de acordo, caso contrario que arquive o processo, como alguns TRT’s, corretamente já  o fazem, que na hipótese de impasse nas negociações que as partes utilizem a mediação e a arbitragem privada, como ocorre nos EUA e no Japão, onde   não há Justiça do Trabalho. Tudo isso é sonho, mas  acredito em algumas ações,    não muito profundas, o  “establishment” reacionário não permitiria mudanças inovadoras, mesmo com os exemplos internacionais bem sucedidos, como já demonstrado. No que tange às próximas eleições   nunca vi, o Brasil nunca teve dois candidatos tão bem preparados como nessa eleição, acho que ambos têm excelentes qualidades, referencial histórico respeitável e têm competência para bem dirigir o Brasil, a despeito das alianças realizadas, que para ambos são decepcionantes até  incompreensíveis. Aliás, acredito que o Brasil alcançou um nível tal que nem mesmo o pior dos candidatos se vencesse não teria como impedir que o país siga o seu destino de crescimento e liderança no mundo.

 

Melhor - Há um forte processo de terceirização em curso. Em muitos casos, ele não segue os preceitos legais gerando processos. Como o senhor analisa esse fato?

 

Garcez -  A Terceirização é uma ferramenta utilizada em momento de dificuldade de emprego, de economia em situação crítica, no buraco, a empresa acabada precarizando o trabalho é uma solução de países não muito desenvolvidos. Ela foi criada com todos os seus abusos, especialmente burlando os direitos trabalhistas,  com o crescimento das “PJs” tudo para pagar menos impostos, mesmo que isso signifique rasgar o decantado Código de Ética. A ação da Vivo [veja mais na edição de agosto de MELHOR] ao acabar com a terceirização nas lojas foi uma atitude humana e inteligente que demonstra o correto, a nova tendência para um país que se deseja digno. Em vez de pagar ao terceirizador, pague a seus funcionários. No Brasil, utilizamos isso por um período como uma forma de gerar subemprego, que em principio parecia melhor que o desemprego, se assim é vamos nessa pensam alguns poucos brasileiros e  outros que tendem a seguir os da casa quando interessa. Na medida em que estamos crescendo, vamos atropelar a terceirização criada em um passado muito triste. Nessa área, a legislação trabalhista é muito fraca, não protege em quase nada o trabalhador. Contudo, existem atividades que, eventualmente, podem ser terceirizadas, como segurança, limpeza e alimentação, ou seja, aquilo que não representa o “core business” não é atividade fim é atividade meio, por exemplo. Interessante observar que os sindicatos nesse segmento praticamente inexistem. Há também quem acredite que a terceirização cumpre também essa função, qual seja, desmobilizar os trabalhadores e o sindicato, estimulando o aparecimento dos “sindicatos de carimbo”. Porém em áreas, como o ABC, por exemplo, os metalúrgicos já se deram conta disso e passaram a assumir a liderança dos terceirizados.

 

MelhorHá 25 anos os brasileiros livraram-se da ditadura militar passando para o regime democrático, aberto, o que mudou nos sindicatos ?

 

Garcez – De fato há 25 anos Tancredo Neves foi eleito por votação indireta  pelo colégio eleitoral, mas acabou falecendo e assumiu Itamar Franco. Só no governo seguinte com o Collor é que a sociedade pode votar para presidente e como não estava preparada, errou feio, lembra ? Quanto as mudanças nos sindicatos, pelo menos para a maioria, aqueles de carimbo ou de fachada, absolutamente  nada mudou, pois  beneficiados pelas benesses do sistema Getulista “imexivel” pelo dinheiro fácil do Imposto Sindical, os dirigentes que se perpetuam no poder continuaram e continuam a se regalar, os trabalhadores ainda alienados “que se lixem” dizem os dirigentes mais atrevidos. Muitos desses sindicalistas acham que o Sindicato é órgão da administração publica, órgão do Ministério do Trabalho ou  continuação dele, tal a burocracia que desenvolvem, administrando colônia de férias reservadas aos amigos, restritos, que asseguram a reeleição e permanência por anos há fio a frente do sindicato. Porém é importante ressaltar que a maioria organizada que tem liderança de fato para mobilizar as bases, com o apoio das Comissões de Fábrica, Sistemas de Representação de Empregados, OLT, SUR, enfim representação ativa no interior das empresas. Afinal nada diferente do que fazem há muitos anos os Sindicatos de Trabalhadores no EUA, Japão e Países da Europa. São esses Sindicatos que no Brasil de hoje se organizam, mobilizam os trabalhadores e conseguem negociar aumentos e outras conquistas históricas, com greve ou sem greve.

 

O Sindicalismo forte, combativo, organizado com poder de mobilização é sinônimo de país rico, prospero, contrariamente ao Sindicalismo Pelego, servil, viciado, corrompido sem poder e/ou liderança para mobilizar os trabalhadores para conquistas, que é sinônimo de país pobre, não raro até miserável, como de forma extremada na África,  nas Américas do Sul e Central e outras regiões do mundo.

 

Melhor – Como era o Lula, Dirigente Sindical na mesa de negociações sindicais ?

 

Garcez -  Era muito combativo, sério, integro, responsável, passávamos – ele com a sua equipe e eu com os colegas de Ford – longas horas e dias na mesa de negociações. Ele mobilizava as bases e liderava as assembléias de trabalhadores para prestar conta do que fazia na mesa e buscar a aprovação, quando as coisas não iam bem a decisão era pela paralisação, pela greve ou “operação tartaruga, operação vaca brava” e por aí ia até que o acordo fosse alcançado. Aliás, as lideranças sindicais do ABC sempre primaram por essa forma de liderança, desde o Afonso, Paulo Vidal, Meneghelli, Guiba, Luiz Marinho e outros. Vem daí o rompimento com as velhas estruturas da época, que levou a FIESP a se organizar e se modernizar e da mesma forma a organização sindical dos trabalhadores.

 

Melhor – Consta que a Garcez Recursos Humanos ganhou notoriedade no mercado também por apresentar às empresas há anos um programa de treinamento em negociação sindical diferenciado, o que poderia dizer a respeito ?

 

Garcez – Como já mencionado estamos no mercado há 25 anos, desde quando sai da Ford e me tornei consultor, lançando a figura do Consultor/Negociador Sindical, inexistente a época no mercado brasileiro para utilização pelas empresas. Existiam sim, os negociadores nas empresas mas não disponíveis no mercado; o que existia era o advogado trabalhista que cuidava do contencioso e do dissídio coletivo na data base, mas o profissional negociador, como nos EUA e na Europa, não tínhamos no Brasil nessa época, fomos o primeiro, pioneiro e contamos com o apoio das empresas e Sindicatos Patronais da FIESP, etc. Os primeiros clientes nessa área foram a Brakofix, por inspiração do empresário Alexandre Fix, logo depois o primeiro grande cliente o Banco Itaú, apresentado pelo amigo Alencar Rossi, até chegar aos dias de hoje com a equipe atendendo clientes desde o Amazonas até ao Rio Grande do Sul, de diversos segmentos e categorias.

 

O programa de treinamento ao qual você se refere é o “Negociando com Negociadores” que é voltado para as negociações sindicais que ministramos aos executivos de empresas e não raro também a dirigentes sindicais. Esse programa tornou referência na área no mercado simplesmente porque ministramos, ensinamos aquilo que fazemos no dia-a-dia nas mesas de negociações com os Sindicatos nas várias regiões do Brasil, além disso temos contado com o apoio imprescindível de lideranças sindicais de nível e o prestígio de empresas como: Petrobrás, Vale, Kraft, Basf, Fiat, Bosch, Monsanto, GM, AkzoNobel, Ford, L´oréal, Evonik Degussa, AES Eletropaulo, Light/Rio, Souza Cruz e outras em eventos abertos e “in company”

 

Quadro

Dimensões da gestão

 Garcez,  Diretor presidente da Garcez Recursos Humanos, que comemora Jubileu de Prata este ano,  também presidente fundador do  INAMA/BR - Instituto Nacional de Mediação e Arbitragem, ex- negociador sindical da Ford entre 1974 e 1985, ex-gerente de RH da mesma montadora de 1960 a 1985, negociador  sindical da FIESP -  Grupo 14, do Sinfavea e da FIEP,  e autor da obra  Negociando com Negociadores – O NegociadorTtrabalhista” ,  Edmir F,  Garcez é um dos palestrantes do V Congresso de Gestão de Pessoas –  promovido pela ABRH/BA nos dias 4 e 5 de novembro, no Bahia Othon Palace Hotel, em Salvador, e cujo tema central é  “As diferentes dimensões da gestão de pessoas.  Garcez fará a palestra “Gestão Sindical no século 21 - a humanização além da negociação”.

 

Boxe

Reter “na marra”

 

Imagens

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Legenda

Pierre Piccaretta, representante da Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT), um dos maiores sindicatos da França, fala com a imprensa na fábrica Caterpillar, em 31 de março do ano passado, quando cinco executivos da empresa foram “seqüestrados”

 

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Legenda

Sindicalista discursa para grevistas na fábrica da Caterpillar, em 31 de março do ano passado. Em outra sala, cinco executivos eram impedidos de sair da empresa

 

Notícia publicada no World Socialist Web Site, em abril do ano passado, informava que trabalhadores em greve das duas plantas da Caterpillar em Grenoble, na França, detiveram cinco de seus diretores em seus escritórios no último dia de março. Os executivos ficaram impossibilitados de deixarem a empresa desde a manhã daquele dia até a 1h da manhã do dia seguinte.

A atitude dos trabalhadores franceses em tomaram os cinco diretores como reféns foi justificada como uma maneira para forçar a companhia a negociar o plano envolvendo 733 demissões dentre os 2.800 trabalhadores nas unidades de Grenoble e Echirolles.

A mesma notícia também informava que, em fevereiro de 2008, trabalhadores da BRS em Devecey mantiveram seu chefe refém porque ele tentou mudar todas as máquinas de sua fábrica para a Eslováquia sem informá-los. No mês seguinte, trabalhadores da fábrica Kléber em Toul detiveram dois diretores a fim de obter melhores termos para a demissão. “Em março deste ano, o presidente da Sony na França foi forçosamente detido em sua planta em Pontons-sur-Adour. Duas semanas depois, foi a vez do diretor industrial da fábrica da 3M em Pithiviers, próximo a Orléans. Ambas as ações foram tentativas de obter concessões dos diretores sobre os termos de demissão.Na terça-feira, François-Henri Pinault, o chefe executivo bilionário do luxuoso grupo varejista PPR, teve que ser resgatado pela polícia, depois que os trabalhadores da loja bloquearam seu taxi por mais de uma hora, assim que ele saiu de uma reunião” ”, diz o texto.

 

Dimensões da gestão

Diretor-presidente da Garcez Recursos Humanos, também presidente fundador do Instituto Nacional de Mediação e Arbitragem (Inama/Br), ex- negociador sindical da Ford entre 1974 e 1985, ex-gerente de RH da mesma montadora de 1960 a 1985 e autor de Negociando com negociadores - O negociador trabalhista , Edimir Garcez é um dos palestrantes do V Congresso de Gestão de Pessoas - AquaRHela para InovaRH e HumanizaRH, promovido pela ABRH-BA nos dias 4 e 5 de novembro, no Bahia Othon Palace Hotel, em Salvador, e cujo tema central é As diferentes dimensões da gestão de pessoas . Garcez fará a palestra Gestão Sindical no século 21 - a humanização além da negociação.




Fonte - Revista Melhor